terça-feira, 30 de dezembro de 2008

retrô doi, mas conforta


Dia 30 de dezembro. Desde o natal vinha buscando me esconder da melancolia que me espreita . Por que será que esta época do ano nos deixa tão suscetíveis?
Busco mil atividades, sabendo de antemão, que em algum momento não mais conseguirei evitar a escrita. Perscrutando a alma dou de cara com a dita cuja. Encaro-a de frente, pois não tenho para onde correr. Ela fala-me dos que já foram, e a dor que lateja insensantemente, chamada saudade.
Tenho filhos, mas eles não sao mais os filhos da infância. Com os netos, busco viver novamente aquela sensação que só crianças podem nos dar. Mas meus filhos bebês, pequeninos, estão perdidos para sempre no real. Felizmente sobrevivem em minha memória.
Sinto tambem saudades de filha ser. Falta do colo, das cantigas de ninar, do cuidado, do carinho.... menina...não bota o pé no chão frio, vc acabou de acordar.
Da satisfação do meu pai: -Minha filha é a primeira da turma... minha filha é jornalista.
Saudade de tanta gente que não morreu, mas que não vejo mais.Pessoas que já morreram e que demorarei a ver. Pessoas que me fizeram bem, que me viram crescer, que me ensinaram, me acompanharam, me prepararam para a vida. Pessoas que apenas me viram passar. Pessoas que eu me acostumei a ver passar.
Não tenho vergonha de chorar de saudade. Descubro nesta retrô que entristeço-me porque sou feliz. Choro porque recordo com alegria, mesmo com melancolia, que sentir saudades é lembrar do amor, e isto eu tive de sobra.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Morte e Vida


Dei de cara novamente com a morte. Quem disse que é fácil? Ela olhou-me meio debochada, como a dizer: -É isto mesmo, estou por aqui de novo e não há nada que você possa fazer.

Mudar o rumo da morte eu não posso, mas pude sim fazer alguma coisa. Elevei o pensamento e busquei a vida que estava ali, do outro lado, tão tênue e tão próxima, mas do outro lado. E lá vislumbrei mensageiros de vida, auxiliando aquele a quem a morte espreita.
A morte encarou-me e disse:- Vou dar uma saidinha, mas nem se anime, porque eu volto. Eu disse até logo para ela. No outro dia tive a noticias de que como por milagre o paciente havia melhorado bastante depois que as visitas partiram e passara a noite bem.
Tive tambem noticias de vida. Ela falou-me pelo telefone que vem dar o ar de sua graça novamente. Mais um neto. Mais uma oportunidade criada. Agradecida a Deus, concluo que a vida e a morte fazem parte de um mesmo plano divino e que comprendê-las depende do ângulo que as vemos e vivemos. Se estamos vivos aqui, no plano terreno, estamos mortos no plano espiritual e vice e versa. E o plano divino é sempre de vida que se renova a cada ciclo.
Quando me deparar novamente com a morte, direi: -Agora, que eu compreendo que você não existe, pode entrar, a casa sua.

quarta-feira, 30 de julho de 2008



Mendigos da Paz

Durante os finais de semana, é comum nos depararmos ao cruzarmos a cidade, com uma espécie peculiar de pessoas. Estes seres, que quase sempre portam um saco pequeno na mão, e outro maior nas costas, nos abordam para simplesmente pedir. Eles costumam postar-se nos cruzamentos, pelas ruas da cidade, batendo de porta em porta, pelas praias, praças, enfim, pelos lugares onde haja gente disposta a contribuir.

Muitas pessoas se sentem incomodadas,e até podem pensar, - mais um a pedir esmola- fato que os leva a retraírem-se e negar um pequeno auxilio.
Cada um no seu direito. Se essas pessoas parassem para procurar saber e compreender qual a intenção desses espíritos, com certeza, jamais negariam aquilo que não lhes falta.

Geralmente, não pedem apenas. Deixam sempre uma bela mensagem escrita de amor e otimismo para aqueles que contribuem ou não. Apesar da rapidez do contato, agem como um sopro diáfano na turbulência do dia-a-dia, porque transmitem a paz. Acima de tudo, ensinam pelo exemplo. O belo exemplo de
Disporem do seu tempo de descanso, de convívio com a família, de momentos de lazer para ajudarem ao próximo. Sim, porque não pedem para si mesmos, e sim para dezenas de instituições de caridade que necessitam da bondade alheia para darem cumprimento a sua missão de fé. Dão o exemplo do desapego, da suplantação do ego, da perda da vaidade pessoal, da obstinação, da paciência , do perdão, em total anonimato. Quem dá não sabe nem o nome de quem está realizando o trabalho, como também, quem recebe, nos diversos orfanatos e abrigos para idosos, também não sabe qual mão amiga executou aquela tarefa.

Convenhamos que não é tarefa fácil, colocar um saco nas costas e caminhar de sol a sol, no clima que temos, durante toda a manhã. O que dizer dos dias de inverno, então, quando a chuva castiga quem não tem mais mão disponível para segurar um guarda-chuva. Essas pessoas se deparam com todo tipo de gente. Há os que acolhem, que oferecem um copo d’água, e até um lanche, em contrapartida, há ainda os que batem a porta na cara, os que xingam, os que atribuem utilização escusa do óbolo, pelo trabalhador.


Os que realizam esta tarefa santa dizem , que as forças tendem a aumentar durante o tempo que ela dura. À medida que o saco de alimentos vai enchendo, parece que vai ficando mais leve. No decorrer da caminhada sente-se sempre uma grande paz interior, e ao final dela uma alegria infinda. A alegria do dever cumprido. Um dever que não foi imposto, mas escolhido como tarefa, de ajuda ao próximo e principalmente a si mesmo
As pessoas em questão praticam a verdadeira caridade de que falava o Cristo, que é o amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como si mesmo. No ato de livrarem-se de um tanto de imperfeições, estão praticando a caridade para si, ao mesmo tempo que auxiliam aos que respondem ao chamado da caridade encontrando o veículo para a prática, e finalmente auxiliando os que recebem o produto final da labuta.

É um trabalho organizado e sério, realizado pela Religião Espírita kardecista. Existe uma Escola Central do Quilo, que orienta à entidades espíritas que desejam realizá-lo e distribuem o que foi arrecadado. Cada Pessoa disposta a trabalhar recebe uma carteirinha de Legionário do Quilo, para sua identificação. Ao termino do trabalho todos se reúnem em local combinado para a contagem do dinheiro e a pesagem dos alimentos, na presença de todos os participantes e de um responsável da Escola Central que encarrega-se de levar o produto do trabalho daquele dia ao seu destino. Tudo documentado e checado.

Pelo exposto, vamos olhar com outros olhos e com outra disposição, esses seres chamados Legionários do Quilo quando eles baterem à nossa porta, ou no vidro do nosso carro, pedindo e trazendo esperança.

Deixo ainda aqui o exemplo de humildade praticada por anos de apostolado, do implantador da campanha do Quilo em nosso Estado, o saudoso Elias Sobreira. Ele contava que uma vez, fazendo a campanha, estendeu a mão direita para receber o auxilio, e o homem a quem pedia cuspiu na sua mão. Ele suavemente guardou a mão direita e estendeu a esquerda dizendo: “Meu irmão, o meu você já deu, agora me dê o das criancinhas”.

sábado, 21 de junho de 2008

Olha pro céu, meu amor ou Contadora de balões


Atualmente, soltar balões não é considerado ecologicamente correto, e em épocas juninas, as campanhas de prevenção se sucedem. Mas não era assim na minha infância. Os balões coloridos e iluminados encantavam a inocência que ainda não sabia dos seus efeitos devastadores . Enquanto as outras crianças ficavam ao redor da fogueira soltando seus fogos, eu simplesmente me afastava, pois a fumaça sempre me irritava os olhos. Saía driblando as fogueiras pela rua, com olhar fixo no céu, contando balões. Até hoje não sei como não caí numa delas, naquelas excursões volateis. Os balões eram conundidos com as estrelas, de tão numerosos.
Festa mesmo, era quando algum vizinho resolvia soltar um balão. Eu ficava ali, quietinha, observando tudo o que acontecia. Batia palmas quando o balão finalmente subia e ganhava os ares (mais um para a minha contagem) e ficava bastante triste quando algo dava errado e ele se incendiava. Enquanto o papel de seda queimava eu lamentava. Mas logo haviam outros. Centenas deles a encher o céu de cores e meu coração de alegria. Eu nunca soube quantos balões contei, pois tambem nunca sabia quantos eu estava contando pela segunda vez. Na verdade, o prazer estava no ato da descoberta de mais um balão que aparecia e desaparecia da mesma forma que vinha. Eram todos meus e nenhum me pertencia. Eu contava ilusões. Eram belas ilusões, faiscantes e tremeluzentes, mas simplesmente ilusões que se dispersaram com o tempo, mas que encheram de beleza a minha infancia e se tornaram lembranças eternas.

terça-feira, 10 de junho de 2008

O QUE LEMBRA MEU PAI

Alegria de viver,
assovio,
buzina musical,
uma criança sendo jogada pra cima,
amor aos animais,
cozido,
sangria,
banho de perfume,
cheiro de cigarro,
disciplina,
futebol,
visitas surpresa,
bom gosto ao vestir,
fluência verbal,
Quando recebo uma correção,
Quando preciso de guarnição
Quando paro para agradecer a Deus pela dádiva da vida

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Seu Expedito


Quem me despertou para a contação de histórias foi Seu Expedito. Era um cabloco amorenado, magro, fumava que nem caipora e passava sempre uns dias na casa de minha avó materna, pois era seu cunhado. Anoitecia e criançada ia chegando, por ali, desconfiada, com vergonha de pedir, mas sabiamos que logo, logo ele começaria a sessão. Para tanto precisavamos entrar no clima. Seu Expedito apagava as luzes, acendia uma das velas que minha avó sempre tinha de sobra e começava a desfilar suas histórias de malassombros e encantos. As crianças ficavam completamente ligadas na narrativa, tremendo de medo, olhando para os lados, como se a qualquer instante fosse surgir do escuro, algum personagem da história em foco. Seu Expedito de vez em quando dava umas cusparadas de lado e continuava a narrativa. Tinha história para todos os gostos, desde os malassombros aos contos de fadas. Lembro-me especialmente do Gato de Botas, que ele adorava contar. Penso mesmo que aquele gato ladino e inteligente que a todos enganava era a sua personagem favorita. . Mulas sem cabeça, Curupira, Cumade Fulôzinha (que me deixava com medo de ir sozinha ao grande quintal da minha avó, que mais parecia um sitio). Havia histórias que inventava na hora, com certeza, como tambem mudava ao seu bel prazer, na sua infinda sensibildiade e sabedoria de contador, o desenrolar de algumas já conhecidas. Quando acabava uma história, ele sempre dizia, "Entrou por uma perna de pinto, saiu por uma perna de pato, Seu rei mandou dizer, que me contasse quatro"... e ele mesmo iniciava mais uma, para a nossa alegria. Quando se cansava, acabava mesmo. e não adianta a gente pedir :"Seu Expedito, conte mais uma"... Ele então defazia o encanto: acendia a luz, apagava a vela, acendia o cigarro (porque não contava histórias fumando) e "Z fini", como ele dizia. Então íamos para casa, dormir cheios de medo, embalados pelas envolventes histórias de Seu Expedito. Uma figura que agradeço ter passado pela minha vida.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Amigas volantes


Elas chegam-me assim, sem avisar. Vão colorindo o meu caminho e enchendo de encanto meu inicio de dia. Não sei se só chegaram agora, ou se só pude percebê-las neste momento mágico. Brindam a manhã desejando-me sorte. Volatizam ao meu lado sem interferir nos meus passos, apenas acompanham-me. Não me dizem o que fazer, mas convidam-me a examinar a beleza da natureza e regozijo-me por ela, e com elas. Um dia, voarei como elas. Por enquanto, meu salto alto, salpica de felicidade o solo que percorro completamente embevecida, guarnecida, agradecida. Voltem sempre, borboletas.