quarta-feira, 30 de julho de 2008



Mendigos da Paz

Durante os finais de semana, é comum nos depararmos ao cruzarmos a cidade, com uma espécie peculiar de pessoas. Estes seres, que quase sempre portam um saco pequeno na mão, e outro maior nas costas, nos abordam para simplesmente pedir. Eles costumam postar-se nos cruzamentos, pelas ruas da cidade, batendo de porta em porta, pelas praias, praças, enfim, pelos lugares onde haja gente disposta a contribuir.

Muitas pessoas se sentem incomodadas,e até podem pensar, - mais um a pedir esmola- fato que os leva a retraírem-se e negar um pequeno auxilio.
Cada um no seu direito. Se essas pessoas parassem para procurar saber e compreender qual a intenção desses espíritos, com certeza, jamais negariam aquilo que não lhes falta.

Geralmente, não pedem apenas. Deixam sempre uma bela mensagem escrita de amor e otimismo para aqueles que contribuem ou não. Apesar da rapidez do contato, agem como um sopro diáfano na turbulência do dia-a-dia, porque transmitem a paz. Acima de tudo, ensinam pelo exemplo. O belo exemplo de
Disporem do seu tempo de descanso, de convívio com a família, de momentos de lazer para ajudarem ao próximo. Sim, porque não pedem para si mesmos, e sim para dezenas de instituições de caridade que necessitam da bondade alheia para darem cumprimento a sua missão de fé. Dão o exemplo do desapego, da suplantação do ego, da perda da vaidade pessoal, da obstinação, da paciência , do perdão, em total anonimato. Quem dá não sabe nem o nome de quem está realizando o trabalho, como também, quem recebe, nos diversos orfanatos e abrigos para idosos, também não sabe qual mão amiga executou aquela tarefa.

Convenhamos que não é tarefa fácil, colocar um saco nas costas e caminhar de sol a sol, no clima que temos, durante toda a manhã. O que dizer dos dias de inverno, então, quando a chuva castiga quem não tem mais mão disponível para segurar um guarda-chuva. Essas pessoas se deparam com todo tipo de gente. Há os que acolhem, que oferecem um copo d’água, e até um lanche, em contrapartida, há ainda os que batem a porta na cara, os que xingam, os que atribuem utilização escusa do óbolo, pelo trabalhador.


Os que realizam esta tarefa santa dizem , que as forças tendem a aumentar durante o tempo que ela dura. À medida que o saco de alimentos vai enchendo, parece que vai ficando mais leve. No decorrer da caminhada sente-se sempre uma grande paz interior, e ao final dela uma alegria infinda. A alegria do dever cumprido. Um dever que não foi imposto, mas escolhido como tarefa, de ajuda ao próximo e principalmente a si mesmo
As pessoas em questão praticam a verdadeira caridade de que falava o Cristo, que é o amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como si mesmo. No ato de livrarem-se de um tanto de imperfeições, estão praticando a caridade para si, ao mesmo tempo que auxiliam aos que respondem ao chamado da caridade encontrando o veículo para a prática, e finalmente auxiliando os que recebem o produto final da labuta.

É um trabalho organizado e sério, realizado pela Religião Espírita kardecista. Existe uma Escola Central do Quilo, que orienta à entidades espíritas que desejam realizá-lo e distribuem o que foi arrecadado. Cada Pessoa disposta a trabalhar recebe uma carteirinha de Legionário do Quilo, para sua identificação. Ao termino do trabalho todos se reúnem em local combinado para a contagem do dinheiro e a pesagem dos alimentos, na presença de todos os participantes e de um responsável da Escola Central que encarrega-se de levar o produto do trabalho daquele dia ao seu destino. Tudo documentado e checado.

Pelo exposto, vamos olhar com outros olhos e com outra disposição, esses seres chamados Legionários do Quilo quando eles baterem à nossa porta, ou no vidro do nosso carro, pedindo e trazendo esperança.

Deixo ainda aqui o exemplo de humildade praticada por anos de apostolado, do implantador da campanha do Quilo em nosso Estado, o saudoso Elias Sobreira. Ele contava que uma vez, fazendo a campanha, estendeu a mão direita para receber o auxilio, e o homem a quem pedia cuspiu na sua mão. Ele suavemente guardou a mão direita e estendeu a esquerda dizendo: “Meu irmão, o meu você já deu, agora me dê o das criancinhas”.

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