
Quem me despertou para a contação de histórias foi Seu Expedito. Era um cabloco amorenado, magro, fumava que nem caipora e passava sempre uns dias na casa de minha avó materna, pois era seu cunhado. Anoitecia e criançada ia chegando, por ali, desconfiada, com vergonha de pedir, mas sabiamos que logo, logo ele começaria a sessão. Para tanto precisavamos entrar no clima. Seu Expedito apagava as luzes, acendia uma das velas que minha avó sempre tinha de sobra e começava a desfilar suas histórias de malassombros e encantos. As crianças ficavam completamente ligadas na narrativa, tremendo de medo, olhando para os lados, como se a qualquer instante fosse surgir do escuro, algum personagem da história em foco. Seu Expedito de vez em quando dava umas cusparadas de lado e continuava a narrativa. Tinha história para todos os gostos, desde os malassombros aos contos de fadas. Lembro-me especialmente do Gato de Botas, que ele adorava contar. Penso mesmo que aquele gato ladino e inteligente que a todos enganava era a sua personagem favorita. . Mulas sem cabeça, Curupira, Cumade Fulôzinha (que me deixava com medo de ir sozinha ao grande quintal da minha avó, que mais parecia um sitio). Havia histórias que inventava na hora, com certeza, como tambem mudava ao seu bel prazer, na sua infinda sensibildiade e sabedoria de contador, o desenrolar de algumas já conhecidas. Quando acabava uma história, ele sempre dizia, "Entrou por uma perna de pinto, saiu por uma perna de pato, Seu rei mandou dizer, que me contasse quatro"... e ele mesmo iniciava mais uma, para a nossa alegria. Quando se cansava, acabava mesmo. e não adianta a gente pedir :"Seu Expedito, conte mais uma"... Ele então defazia o encanto: acendia a luz, apagava a vela, acendia o cigarro (porque não contava histórias fumando) e "Z fini", como ele dizia. Então íamos para casa, dormir cheios de medo, embalados pelas envolventes histórias de Seu Expedito. Uma figura que agradeço ter passado pela minha vida.

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