sábado, 21 de junho de 2008

Olha pro céu, meu amor ou Contadora de balões


Atualmente, soltar balões não é considerado ecologicamente correto, e em épocas juninas, as campanhas de prevenção se sucedem. Mas não era assim na minha infância. Os balões coloridos e iluminados encantavam a inocência que ainda não sabia dos seus efeitos devastadores . Enquanto as outras crianças ficavam ao redor da fogueira soltando seus fogos, eu simplesmente me afastava, pois a fumaça sempre me irritava os olhos. Saía driblando as fogueiras pela rua, com olhar fixo no céu, contando balões. Até hoje não sei como não caí numa delas, naquelas excursões volateis. Os balões eram conundidos com as estrelas, de tão numerosos.
Festa mesmo, era quando algum vizinho resolvia soltar um balão. Eu ficava ali, quietinha, observando tudo o que acontecia. Batia palmas quando o balão finalmente subia e ganhava os ares (mais um para a minha contagem) e ficava bastante triste quando algo dava errado e ele se incendiava. Enquanto o papel de seda queimava eu lamentava. Mas logo haviam outros. Centenas deles a encher o céu de cores e meu coração de alegria. Eu nunca soube quantos balões contei, pois tambem nunca sabia quantos eu estava contando pela segunda vez. Na verdade, o prazer estava no ato da descoberta de mais um balão que aparecia e desaparecia da mesma forma que vinha. Eram todos meus e nenhum me pertencia. Eu contava ilusões. Eram belas ilusões, faiscantes e tremeluzentes, mas simplesmente ilusões que se dispersaram com o tempo, mas que encheram de beleza a minha infancia e se tornaram lembranças eternas.

terça-feira, 10 de junho de 2008

O QUE LEMBRA MEU PAI

Alegria de viver,
assovio,
buzina musical,
uma criança sendo jogada pra cima,
amor aos animais,
cozido,
sangria,
banho de perfume,
cheiro de cigarro,
disciplina,
futebol,
visitas surpresa,
bom gosto ao vestir,
fluência verbal,
Quando recebo uma correção,
Quando preciso de guarnição
Quando paro para agradecer a Deus pela dádiva da vida

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Seu Expedito


Quem me despertou para a contação de histórias foi Seu Expedito. Era um cabloco amorenado, magro, fumava que nem caipora e passava sempre uns dias na casa de minha avó materna, pois era seu cunhado. Anoitecia e criançada ia chegando, por ali, desconfiada, com vergonha de pedir, mas sabiamos que logo, logo ele começaria a sessão. Para tanto precisavamos entrar no clima. Seu Expedito apagava as luzes, acendia uma das velas que minha avó sempre tinha de sobra e começava a desfilar suas histórias de malassombros e encantos. As crianças ficavam completamente ligadas na narrativa, tremendo de medo, olhando para os lados, como se a qualquer instante fosse surgir do escuro, algum personagem da história em foco. Seu Expedito de vez em quando dava umas cusparadas de lado e continuava a narrativa. Tinha história para todos os gostos, desde os malassombros aos contos de fadas. Lembro-me especialmente do Gato de Botas, que ele adorava contar. Penso mesmo que aquele gato ladino e inteligente que a todos enganava era a sua personagem favorita. . Mulas sem cabeça, Curupira, Cumade Fulôzinha (que me deixava com medo de ir sozinha ao grande quintal da minha avó, que mais parecia um sitio). Havia histórias que inventava na hora, com certeza, como tambem mudava ao seu bel prazer, na sua infinda sensibildiade e sabedoria de contador, o desenrolar de algumas já conhecidas. Quando acabava uma história, ele sempre dizia, "Entrou por uma perna de pinto, saiu por uma perna de pato, Seu rei mandou dizer, que me contasse quatro"... e ele mesmo iniciava mais uma, para a nossa alegria. Quando se cansava, acabava mesmo. e não adianta a gente pedir :"Seu Expedito, conte mais uma"... Ele então defazia o encanto: acendia a luz, apagava a vela, acendia o cigarro (porque não contava histórias fumando) e "Z fini", como ele dizia. Então íamos para casa, dormir cheios de medo, embalados pelas envolventes histórias de Seu Expedito. Uma figura que agradeço ter passado pela minha vida.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Amigas volantes


Elas chegam-me assim, sem avisar. Vão colorindo o meu caminho e enchendo de encanto meu inicio de dia. Não sei se só chegaram agora, ou se só pude percebê-las neste momento mágico. Brindam a manhã desejando-me sorte. Volatizam ao meu lado sem interferir nos meus passos, apenas acompanham-me. Não me dizem o que fazer, mas convidam-me a examinar a beleza da natureza e regozijo-me por ela, e com elas. Um dia, voarei como elas. Por enquanto, meu salto alto, salpica de felicidade o solo que percorro completamente embevecida, guarnecida, agradecida. Voltem sempre, borboletas.